
O panorama do mercado automóvel em Portugal continua a desenhar-se com traços de adaptação e resiliência, especialmente face às transformações estruturais que o setor atravessa. Dados recentes da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) revelam as dinâmicas de matriculação de veículos ligeiros de passageiros no mês de fevereiro de 2026, fornecendo um termómetro preciso da saúde do mercado e das preferências dos consumidores portugueses.
Neste período, o mercado registou a matriculação de 20.541 unidades de veículos ligeiros de passageiros, o que se traduz num crescimento notável de 5,5% em comparação com fevereiro de 2025. Este desempenho positivo, embora moderado, sinaliza uma continuação da recuperação observada nos últimos meses, ainda que em contexto de incerteza económica global e transição energética.
Contudo, a análise mais reveladora não reside apenas no volume total, mas na distribuição de quota de mercado entre as diferentes marcas. O top 10 de marcas mais vendidas em fevereiro de 2026 espelha uma concorrência acesa e a crescente influência de novos intervenientes, especialmente os de origem chinesa, que desafiam os players tradicionais europeus.
As cinco marcas que lideram o mercado em fevereiro de 2026 são:
Peugeot – 2.425 unidades (-1,2% em relação ao mesmo período do ano anterior)
Mercedes-Benz – 1.451 unidades (+0,1%)
BMW – 1.295 unidades (+3,5%)
Opel – 1.282 unidades (+70,3%)
Nissan – 1.189 unidades (+22,6%)
Esta lista revela uma predominância das marcas europeias consolidadas, mas com sinais claros de erosão face à concorrência. A Peugeot mantém a liderança, ainda que com uma ligeira contração nas vendas. A Mercedes-Benz e a BMW, representantes do segmento premium, exibem uma estabilidade notável, com crescimentos modestos que refletem a força das suas propostas de valor.
A Opel surge em quarto lugar com um crescimento impressionante de 70,3%, impulsionado por uma renovação de gama e estratégias de marketing agressivas. A Nissan também demonstra uma performance robusta, com um incremento de 22,6% nas vendas.
No entanto, os crescimentos mais expressivos, e verdadeiramente disruptivos, não se encontram no top 5, mas nas posições seguintes, onde a natureza mutável do mercado se torna mais evidente.
Citroën – 1.167 unidades (+38,1%)
Tesla – 1.160 unidades (+112,1%)
Volkswagen – 1.126 unidades (+12,8%)
Renault – 1.056 unidades (-36,8%)
Toyota – 947 unidades (-10,5%)
A Tesla apresenta um crescimento estratosférico de 112,1%, consolidando a sua posição como líder incontestado no segmento de veículos elétricos (VE). Este desempenho reflete a crescente aceitação dos modelos da marca californiana por parte dos consumidores portugueses, apesar do aumento da concorrência. A Citroën também exibe um crescimento significativo de 38,1%, demonstrando a eficácia da sua estratégia focada em mobilidade acessível e inovadora.
O Volkswagen, apesar de uma ligeira subida de 12,8%, já não ocupa as posições de topo a que nos habituou no passado, sinalizando a perda de quota de mercado face aos novos concorrentes. A Toyota, uma referência em veículos híbridos, regista uma queda de 10,5%, o que pode indicar uma transição mais lenta do mercado português para esta tecnologia em relação ao elétrico puro.
A Renault, historicamente uma das marcas mais vendidas em Portugal, sofre o maior declínio do top 10, com uma queda de 36,8%. Este desempenho preocupante pode estar relacionado com a saída de modelos icónicos do mercado e uma resposta tardia à eletrificação acelerada, apesar da promessa de novos lançamentos nos próximos anos. É relevante notar que o Renault Clio foi o carro mais vendido em Portugal em 2025, pelo que esta contração nas vendas em 2026 é particularmente notável.
O Despertar das Marcas Chinesas: Fora do Top 10
Se as dinâmicas internas do top 10 são interessantes, o verdadeiro abalo no mercado português vem das marcas que operam fora desta lista de eleitos. As fabricantes chinesas continuam a sua expansão agressiva em Portugal, apresentando taxas de crescimento que desafiam qualquer lógica de mercado estabelecida.
A MG (Morris Garages), agora propriedade do grupo SAIC, é o exemplo mais flagrante desta revolução. Com um crescimento explosivo de 187,7%, a MG posiciona-se como uma alternativa viável e acessível no mercado de veículos elétricos e híbridos. A sua estratégia, focada em preços competitivos e designs modernos, tem conquistado um número crescente de consumidores que procuram alternativas aos construtores tradicionais.
Outras marcas chinesas, como a XPeng e a Dongfeng Motor Corporation, também apresentam crescimentos notáveis de 98,3% e 114,3%, respetivamente. Estas empresas, relativamente novas no mercado europeu, estão a capitalizar sobre a procura por veículos elétricos com tecnologia avançada e autonomias competitivas.
A BYD (Build Your Dreams), um dos maiores fabricantes de veículos elétricos do mundo, soma 467 matrículas em fevereiro de 2026, um crescimento de 32,7%. Este desempenho permite à BYD ultrapassar marcas estabelecidas como a Audi, Škoda e Fiat, demonstrando que a concorrência chinesa não é uma ameaça marginal, mas sim uma força disruptiva com capacidade para redefinir o panorama do mercado.
Este cenário de emergência de novas marcas levanta questões importantes sobre o futuro dos construtores europeus e japoneses em Portugal. Se a tendência de crescimento das marcas chinesas se mantiver, poderemos assistir a uma reconfiguração completa do mercado nos próximos anos, com modelos elétricos acessíveis a dominar as tabelas de vendas.
O Impacto da Transição Energética no Mercado Português
O crescimento exponencial das vendas de veículos elétricos é o reflexo direto da transição energética que o setor automóvel atravessa. Portugal, sendo um dos países da Europa com maior penetração de energias renováveis, encontra-se numa posição privilegiada para liderar esta transição.
Os incentivos governamentais, como o programa “Carro Elétrico” (que oferece deduções fiscais e apoios à aquisição), juntamente com a crescente consciência ambiental dos consumidores, estão a impulsionar a procura por veículos elétricos. Além disso, a expansão da rede de carregamento em Portugal, tanto pública como privada, está a mitigar a ansiedade de autonomia, um dos principais obstáculos à adoção de VE.
No entanto, esta transição não está isenta de desafios. A volatilidade dos preços da eletricidade e a necessidade de investimentos contínuos na infraestrutura de carregamento continuam a ser preocupações para muitos consumidores. Além disso, a dependência de matérias-primas para baterias, muitas das quais são provenientes de países com regimes políticos instáveis, levanta questões éticas e de segurança de abastecimento.
Adaptação dos Construtores Europeus face à Ameaça Chinesa
Os construtores europeus estão sob pressão crescente para se adaptarem à nova realidade do mercado. A Mercedes-Benz, por exemplo, lançou o seu novo Classe S 2026, uma berlina de luxo que representa o ápice da tecnologia e do conforto. Este modelo, equipado com o sistema Digital Light e um interior completamente redesenhado, demonstra a capacidade da marca alemã de inovar e manter a sua posição de referência no segmento premium.
No entanto, a estratégia da Mercedes-Benz para a eletrificação total recai sobre o EQS, o seu modelo 100% elétrico, que só chegará em 2030. Esta abordagem mais gradual pode ser uma desvantagem face aos concorrentes chineses que estão a lançar modelos elétricos mais acessíveis e com maior autonomia.
A Renault, por outro lado, parece estar a enfrentar dificuldades acrescidas. O declínio acentuado nas vendas em 2026 levanta questões sobre a sua capacidade de competir neste novo paradigma. A marca francesa tem no Renault Clio um modelo de sucesso, mas a sua estratégia para a eletrificação total e a resposta à concorrência chinesa precisarão de ser mais assertivas nos próximos anos.
O Futuro do Mercado Automóvel Português
O mercado automóvel português em 2026 apresenta um panorama fascinante, marcado por uma concorrência acirrada e uma transição energética acelerada. Os dados de fevereiro demonstram que os consumidores estão a abraçar os veículos elétricos, impulsionados por uma combinação de incentivos governamentais, consciência ambiental