O panorama automóvel português continua a ser um espelho das tendências globais, embora com as suas particularidades nacionais. Os dados mais recentes divulgados pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP) referente a fevereiro de 2026 revelam um mercado em transição, marcado por um crescimento modesto mas constante e por uma reconfiguração das preferências dos consumidores. Este artigo explora em detalhe esses números, analisa os principais players e antecipa os desafios e oportunidades que se colocam ao setor nos próximos anos.
Crescimento e Contexto Económico
Em fevereiro de 2026, o mercado de ligeiros de passageiros em Portugal registou um volume de 20.541 unidades matriculadas, traduzindo-se num incremento de 5,5% face ao mesmo mês de 2025. Este crescimento, embora positivo, deve ser analisado no contexto da recuperação económica pós-pandemia e da transição energética em curso. O mercado português ainda não recuperou os volumes pré-pandemia, mas a trajetória ascendente sugere uma consolidação do interesse dos consumidores por novos veículos, impulsionada por uma maior oferta de modelos eletrificados e por incentivos governamentais que visam descarbonizar a frota nacional.
Contudo, a conjuntura económica continua a ser um fator de incerteza. A inflação, embora em desaceleração, continua a pressionar os orçamentos familiares, e as taxas de juro, apesar de estabilizadas, mantêm o custo de financiamento elevado. Estes fatores condicionam a decisão de compra de um automóvel novo, empurrando muitos consumidores para segmentos mais acessíveis ou para o mercado de usados. No entanto, a evolução positiva de 2026 demonstra que o setor tem capacidade de adaptação e que a procura por novas tecnologias, em particular a eletrificação, está a ganhar tração.
Análise do Top 10: O Domínio Europeu
O ranking das marcas mais vendidas em fevereiro de 2026 revela um cenário consolidado, com predominância de marcas europeias tradicionais.
Peugeot – 2.425 unidades (-1,2%)
A Peugeot mantém a liderança do mercado, beneficiando da sua forte presença histórica em Portugal e de uma gama que equilibra propostas acessíveis com modelos mais sofisticados. O Peugeot 208 continua a ser um best-seller, atraindo compradores pela sua versatilidade e design apelativo. A marca francesa tem apostado na eletrificação da sua gama, mas a sua força reside ainda nos modelos a combustão, que continuam a representar a maior parte das suas vendas.
Mercedes-Benz – 1.451 unidades (+0,1%)
O desempenho da Mercedes-Benz é notável, com um crescimento praticamente nulo, o que denota uma estabilidade impressionante num mercado volátil. A marca alemã consolida a sua posição no segmento premium, oferecendo uma gama que vai desde utilitários compactos a berlinas de luxo e SUV de alta performance. A aposta em tecnologia avançada e em soluções de conectividade tem sido um fator diferenciador, atraindo um público exigente que valoriza qualidade e inovação.
BMW – 1.295 unidades (+3,5%)
A BMW apresenta um crescimento sólido, reforçando a sua competitividade no segmento premium. A estratégia da marca bávara tem sido focar-se em modelos que combinam performance, design e tecnologia, respondendo à procura por veículos que ofereçam uma experiência de condução envolvente. A eletrificação tem sido uma prioridade, com o lançamento de novas versões híbridas e totalmente elétricas que têm sido bem acolhidas pelo mercado.
Opel – 1.282 unidades (+70,3%)
O crescimento expressivo da Opel é, sem dúvida, um dos destaques do mês. Este salto de 70,3% deve-se, em grande parte, ao sucesso do Corsa, um modelo que tem reconquistado a confiança dos consumidores portugueses pela sua relação qualidade-preço e pela sua versão elétrica, o Corsa-e. A marca do grupo Stellantis beneficia da sua ampla rede de distribuição e da sua capacidade de oferecer produtos competitivos em diversos segmentos, desde city cars a SUVs familiares.
Nissan – 1.189 unidades (+22,6%)
A Nissan continua a beneficiar do investimento feito no mercado português, apresentando um crescimento robusto. O sucesso dos seus modelos elétricos, como o Leaf, e dos SUVs compactos tem sido fundamental para esta performance. A marca japonesa tem apostado na inovação tecnológica e na mobilidade elétrica, posicionando-se como uma alternativa credível no mercado, especialmente entre os consumidores que procuram veículos fiáveis e eficientes.
Citroën – 1.167 unidades (+38,1%)
A Citroën demonstra um crescimento impressionante, refletindo a estratégia de renovação da marca. O C3, em particular, tem sido um sucesso de vendas, atraindo compradores pela sua proposta de valor diferenciada, que combina design original, conforto e um preço competitivo. A Citroën tem sabido adaptar-se às tendências do mercado, oferecendo versões elétricas dos seus modelos mais populares e apostando em soluções de mobilidade inovadoras.
Tesla – 1.160 unidades (+112,1%)
O crescimento explosivo da Tesla é o fenómeno do mês. Com um aumento de 112,1%, a marca norte-americana consolida a sua posição no mercado de veículos elétricos e demonstra a crescente aceitação da mobilidade elétrica em Portugal. O Model 3 e o Model Y continuam a ser referências em termos de autonomia, performance e tecnologia, atraindo um público que valoriza a inovação e a sustentabilidade. A expansão da rede de carregadores e a crescente familiaridade dos consumidores com a tecnologia elétrica são fatores que impulsionam este crescimento.
Volkswagen – 1.126 unidades (+12,8%)
A Volkswagen, uma das marcas mais tradicionais em Portugal, apresenta um crescimento sólido, impulsionado pela sua gama diversificada. O Golf, apesar de ter perdido a liderança para modelos mais recentes, continua a ser um pilar da marca, enquanto os modelos elétricos da gama ID. têm ganho quota de mercado. A Volkswagen beneficia da sua forte rede de distribuição e da confiança que os consumidores depositam na marca, associada a qualidade e fiabilidade.
Renault – 1.056 unidades (-36,8%)
A queda acentuada da Renault é surpreendente, considerando que o Clio foi o modelo mais vendido em Portugal em 2025. Este declínio pode ser atribuído a uma combinação de fatores, incluindo a renovação da gama, que pode ter causado alguma instabilidade nas vendas, e a concorrência crescente no segmento dos utilitários. No entanto, a Renault continua a ser uma marca importante no mercado português, com uma forte presença histórica e uma gama que oferece opções para diversos públicos.
Toyota – 947 unidades (-10,5%)
A Toyota regista um decréscimo nas vendas, o que contrasta com a tendência de crescimento da marca em anos anteriores. Este recuo pode estar relacionado com a renovação de alguns modelos ou com a adaptação à nova realidade do mercado elétrico, onde a marca, tradicionalmente forte em híbridos, enfrenta agora uma concorrência mais acirrada. No entanto, a Toyota mantém a sua reputação de fiabilidade e eficiência, e espera-se que a marca continue a ser um player relevante no mercado, especialmente com a introdução de novos modelos elétricos e híbridos.
Fora do Top 10: O Fenómeno Chinês
Enquanto o top 10 é dominado por marcas europeias, o segmento fora da elite revela as transformações mais profundas do mercado. As marcas chinesas estão a ganhar terreno a um ritmo impressionante, impulsionadas por preços competitivos, tecnologia avançada e um forte investimento em marketing e distribuição.
A MG dispara 187,7%, consolidando a sua posição como uma das marcas de crescimento mais rápido em Portugal. A marca britânica, agora propriedade da SAIC Motor, oferece uma gama de veículos elétricos e híbridos que atraem consumidores que procuram alternativas acessíveis às marcas tradicionais.
A XPeng, com um crescimento de 98,3%, e a Dongfeng Motor Corporation, com 114,3%, demonstram que a China é a principal fonte de inovação e competitividade no mercado de veículos elétricos. Estas marcas oferecem tecnologia de ponta, incluindo sistemas avançados de assistência ao condutor e software de infotainment de última geração, a preços que desafiam os fabricantes estabelecidos.
A BYD, com 467 matrículas e um crescimento de 32,7%, ultrapassa marcas conhecidas como Audi, Škoda e Fiat. A BYD está a posicionar-se como uma das líderes globais em mobilidade elétrica, e a sua expansão em Portugal é um reflexo dessa estratégia. A marca oferece uma gama diversificada de veículos elétricos, desde city cars a sedans de luxo, com uma forte aposta na tecnologia de baterias e na inovação.
Nomes Conhecidos em Declínio
Paralelamente ao crescimento chinês, registou-se um declínio em marcas que tradicionalmente tinham uma forte presença no mercado. A Smart (-63,5%), a Alfa Romeo (-60,7%) e a Dacia (-